A disseminação de conteúdos fraudulentos utilizando o nome do programa Desenrola Brasil atingiu um patamar preocupante nos últimos meses. Um levantamento detalhado realizado pelo Netlab, laboratório vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou a veiculação de 544 anúncios falsos em plataformas digitais entre 1º de abril e 14 de junho deste ano. O material, que visa enganar consumidores em busca de renegociação de dívidas, explora a vulnerabilidade de usuários em redes controladas pela Meta.
Mecanismos de fraude e uso de inteligência artificial
A estratégia dos criminosos baseia-se na criação de páginas que mimetizam a identidade visual de órgãos oficiais e instituições financeiras. Segundo os pesquisadores, 34 páginas utilizaram o nome oficial do programa federal para impulsionar 278 anúncios, enquanto outras 15 inventaram um programa fictício denominado Libera Brasil para atrair vítimas. O uso de tecnologias avançadas é um diferencial alarmante: cerca de 38,1% do conteúdo analisado foi gerado por inteligência artificial, conferindo uma aparência de legitimidade que dificulta a identificação imediata pelos usuários.
Vulnerabilidade do usuário e estratégias de manipulação
A dificuldade em distinguir entre publicidade autêntica e material malicioso é apontada como o principal fator de risco. Conforme explica Marie Santini, diretora do Netlab, a ausência de filtros eficazes nas plataformas permite que anúncios ilegítimos circulem livremente ao lado de comunicações oficiais. Os golpistas utilizam táticas de engenharia social, como a promessa de soluções financeiras irreais e a criação de um senso de urgência, para induzir o clique e direcionar as vítimas para canais externos, como o WhatsApp, onde a coleta de dados sigilosos é consolidada.
Histórico de sanções e resposta das plataformas
O problema não é recente e remonta ao lançamento da primeira fase do programa em 2023. Naquela ocasião, o Ministério da Justiça interveio para determinar a remoção de conteúdos enganosos, resultando em uma multa de R$ 9,3 milhões aplicada à Meta. Apesar das medidas, a reincidência foi observada com o lançamento da segunda versão do programa em maio deste ano, quando a circulação de golpes ganhou novo fôlego.
Posicionamento da Meta sobre segurança digital
Em nota oficial, a Meta declarou que o combate a fraudes é uma prioridade e que tem investido em inteligência artificial e reconhecimento facial para a remoção proativa de conteúdos. A empresa informou que, em 2025, removeu mais de 159 milhões de anúncios por violação de políticas, sendo a grande maioria detectada antes mesmo de denúncias de usuários. A companhia reforça que coopera com as autoridades brasileiras e que mantém revisão humana constante para identificar atividades ilícitas em suas redes, como pode ser acompanhado na Agência Brasil.