Dono da Voepass admite à PF ciência de falhas técnicas e alertas da Anac antes de tragédia

Dono da Voepass admite à PF ciência de falhas técnicas e alertas da Anac antes de tragédia

Cultura de omissão e alertas ignorados na Voepass

Em depoimento prestado à Polícia Federal, o proprietário e presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho, admitiu ter conhecimento de uma cultura de omissão no registro de falhas técnicas dentro da companhia aérea. A empresa tornou-se alvo de rigorosa investigação após a queda do voo 2283, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), que resultou na morte de 62 pessoas.

O empresário revelou aos investigadores que diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) haviam feito alertas pessoais a ele ao longo dos anos. Segundo o relato, o padrão de conduta dos pilotos consistia em evitar a formalização de problemas nos diários de bordo para impedir que as aeronaves fossem retidas em solo, mantendo a disponibilidade da frota em detrimento da segurança.

Indiciamento por atentado contra a segurança aérea

O relatório final da Polícia Federal aponta a omissão deliberada de registros de manutenção como um elemento central entre as causas do desastre. Diante das evidências de que a segurança era negligenciada, a corporação indiciou Felício Filho e outros 15 profissionais pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, agravado pelo resultado morte.

O crime, previsto no artigo 261 do Código Penal, abrange situações em que alguém expõe a perigo uma aeronave ou dificulta a navegação aérea. Entre os demais indiciados estão diretores de operações, manutenção e segurança, além de mecânicos e despachantes operacionais da companhia.

Reconhecimento de falhas e a tragédia do voo 2283

Durante sua oitiva em 4 de agosto de 2026, o presidente da Voepass reconheceu que houve um erro grave no dia da tragédia. O empresário afirmou que a aeronave não deveria estar naquela condição técnica, nem ter sido despachada para a rota que enfrentava previsão confirmada de formação de gelo severo.

Embora tenha tentado distanciar a alta gestão das decisões operacionais diárias, a PF destacou que Felício Filho, por ser piloto de formação, possuía plena consciência técnica da vulnerabilidade do modelo ATR-72 em condições de gelo. Além disso, ele era o destinatário formal das notificações de irregularidade enviadas pela agência reguladora.

Colapso operacional e encerramento das atividades

O desastre aéreo marcou o início do fim das atividades da Voepass. Investigações complementares do Cenipa confirmaram que a perda de controle em voo foi decorrente do acúmulo de gelo, da inoperância do sistema de degelo e da não execução imediata dos procedimentos de emergência pela tripulação.

Em março de 2025, a Anac determinou a suspensão cautelar das operações após identificar a degradação dos sistemas de segurança. Meses depois, em junho de 2025, a agência cassou definitivamente o Certificado de Operador Aéreo (COA) da companhia. Atualmente, a empresa encontra-se com atividades encerradas, lidando com processos de reestruturação para quitar dívidas acumuladas.

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