A descoberta de uma coleção inusitada começou com um simples teste de luz negra em um antiquário no Norte do Paraná. Ao iluminar taças recém-arrematadas em um leilão, a empresária Camilla Trovó Gimenes observou um brilho verde intenso, confirmando que os itens eram feitos de uralina, um tipo de vidro que incorpora óxido de urânio em sua composição. O achado, embora surpreendente, coloca em evidência o mercado de peças históricas que, apesar de radioativas, são disputadas por entusiastas da decoração.
A ciência por trás do brilho esverdeado
O fenômeno visual que atrai colecionadores não é causado diretamente pela radioatividade, mas por uma propriedade química do urânio. Segundo o professor de química Fábio Cezar Ferreira, da UTFPR, a fluorescência varia entre o amarelo e o esverdeado dependendo do estado de oxidação e da concentração de íons metálicos no vidro. A raridade dessas peças, fabricadas majoritariamente entre 1890 e 1920, eleva o valor de mercado, com itens podendo alcançar cifras expressivas em negociações especializadas.
Do ponto de vista físico, o material apresenta um comportamento distinto de elementos altamente perigosos. O professor Augusto Ricci Murakami explica que o Urânio-238, predominante nessas peças, possui uma meia-vida de aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Por ser um material de desintegração lenta, a emissão de radiação é distribuída ao longo do tempo, tornando-o significativamente menos volátil do que substâncias como o Césio-137, responsável por acidentes radiológicos graves no passado.
Segurança e diretrizes para o manuseio
Embora especialistas confirmem que as peças de uralina não oferecem risco de acidentes radiológicos quando mantidas intactas, o uso cotidiano é desaconselhado. A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) orienta que os objetos sejam armazenados em locais seguros, como cristaleiras, para evitar qualquer interação com alimentos ou desgaste físico. A dose efetiva de radiação emitida por esses itens é considerada muito baixa, situando-se dentro dos limites de segurança estabelecidos para exposições existentes.
A recomendação técnica é clara: caso uma peça sofra danos, os fragmentos devem ser recolhidos com extremo cuidado. É fundamental evitar a criação de poeira através de lixamento ou trituração, pois o risco reside na inalação ou ingestão de partículas. Em caso de descarte, o material não deve ser enviado ao lixo comum, devendo ser encaminhado a unidades da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) capacitadas para o armazenamento de rejeitos.
O cenário regulatório e o mercado de colecionáveis
A fabricação de novos vidros com urânio é proibida no Brasil, conforme diretrizes que classificam a adição de fontes radioativas em bens de consumo como uma prática não justificável. No entanto, o controle regulatório é flexível para peças antigas, que são tratadas como commodities históricas. Para a empresária Camilla, que adquiriu o conjunto sem saber da composição original, a coleção representa um resgate de objetos que, embora carreguem uma história atômica, permanecem como relíquias decorativas.