Uma invasão inusitada de queixadas, animais frequentemente confundidos com porcos selvagens, mobilizou moradores no assentamento Brasil Novo, localizado no município de Querência, a 912 km de Cuiabá. O episódio, ocorrido na última semana de julho de 2023, foi registrado por câmeras de segurança que flagraram o momento em que mais de 40 animais adentraram o quintal de uma residência, gerando correria e apreensão entre os presentes.
Dinâmica da invasão e reação dos moradores
A proprietária da residência, Elenice Paes Cardoso, relatou que, embora a presença desses animais seja comum na região de mata, a dimensão do bando e a proximidade com a casa foram inéditas. O tumulto começou quando um dos cães da família tentou confrontar o grupo, o que provocou uma reação imediata dos queixadas, que avançaram em direção à área habitada.
Apesar do susto e dos gritos de desespero captados pelo sistema de monitoramento, o incidente não resultou em ferimentos aos moradores ou danos materiais significativos à estrutura da propriedade. A situação foi controlada após o afastamento dos animais, que seguiram seu curso natural em direção à vegetação próxima.
Comportamento e riscos da espécie
O biólogo Henrique Abrahão Charles esclarece que, embora o encontro tenha terminado sem ataques, o comportamento dos queixadas exige cautela extrema. Quando se sentem acuados ou ameaçados, especialmente em bandos numerosos, esses animais podem apresentar uma postura defensiva agressiva, capaz de ferir gravemente cães e até humanos que cruzem o seu caminho.
Os queixadas são conhecidos por viverem em grupos sociais complexos, que podem variar de 50 a mais de 200 indivíduos. Por serem animais de grande porte e comportamento coletivo, a recomendação de especialistas é evitar qualquer tentativa de aproximação ou confronto direto, permitindo que o bando siga seu trajeto sem interferências.
Classificação biológica e conservação
É um erro comum classificar os queixadas (Tayassu pecari) como porcos. Eles pertencem à família dos taiaçuídeos, sendo nativos das Américas. Com pelagem escura e uma marca esbranquiçada no queixo, esses mamíferos dependem de grandes extensões de florestas preservadas para sobreviver, necessitando de áreas que podem ultrapassar sete mil hectares.
Atualmente, a espécie enfrenta sérios riscos de sobrevivência devido à fragmentação de habitats, desmatamento e caça ilegal. Segundo dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o animal é classificado como “Vulnerável” em nível nacional, com status ainda mais crítico em biomas como o Cerrado e a Mata Atlântica, onde a população tem declinado drasticamente nos últimos anos.