O que antes era considerado um resíduo agrícola nas lavouras de Mato Grosso pode se tornar a chave para a sustentabilidade da pecuária durante o período de estiagem. Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com a Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), desenvolveram um método para aproveitar a parte aérea da mandioca — composta por folhas e ramos do terço superior da planta — como um suplemento alimentar de baixo custo e alto valor nutricional para rebanhos.
A iniciativa busca mitigar os impactos da escassez de pasto, um desafio recorrente no estado devido ao calor intenso e à baixa pluviosidade. O projeto é conduzido pelo Grupo de Estudos e Extensão em Forragicultura e Conservação de Forragens (GEFOR), sob a orientação do professor Joadil Gonçalves de Abreu, e foca em transformar um material tradicionalmente descartado em uma fonte robusta de proteína para bovinos, caprinos e ovinos.
Potencial nutricional e produtividade no campo
A análise técnica do material revelou dados surpreendentes. Enquanto as pastagens convencionais durante a seca apresentam níveis de proteína bruta entre 5% e 6%, a parte aérea da mandioca demonstrou superar os 15%, atingindo picos de 20% em cultivares específicas. Esse índice é superior ao mínimo de 7% necessário para que o gado mantenha o peso, permitindo, inclusive, o ganho de massa corporal mesmo em condições climáticas adversas.
A produtividade da cultura também se destaca, alcançando 28 toneladas de massa verde por hectare em testes experimentais. Embora o milho para silagem produza cerca de 35 toneladas, a mandioca apresenta uma vantagem competitiva significativa: a rusticidade e a capacidade de suportar períodos prolongados de seca com menor necessidade de insumos e adubação, tornando-a uma alternativa viável para pequenos e médios produtores.
Processamento e segurança alimentar dos animais
O uso da parte aérea da planta exige um protocolo rigoroso de segurança para evitar a intoxicação por ácido cianídrico, composto natural que pode ser fatal se ingerido em grandes quantidades enquanto a planta está úmida. A solução desenvolvida pela equipe é a produção de feno, um processo que garante a volatilização completa das substâncias tóxicas.
O procedimento consiste em triturar o material em pedaços de aproximadamente 2 centímetros e estendê-lo sobre lonas plásticas ao sol, com reviramento constante. A eficácia da secagem pode ser testada de forma simples: ao misturar o feno com sal de cozinha, se o sal não aderir à planta, o material está pronto para o consumo. Estima-se que uma tonelada de massa verde resulte em até 300 kg de feno, volume capaz de suprir a necessidade diária de até 25 animais adultos.
Validação genética e expansão do conhecimento
A Empaer desempenha um papel crucial na validação desses materiais genéticos, mantendo um banco vivo no Campo Experimental de Tangará da Serra. Atualmente, são avaliados 70 materiais de mandioca de mesa e 25 voltados para a indústria. O objetivo da pesquisadora e engenheira agrônoma Dolorice Moreti é identificar variedades que combinem alta produtividade, resistência a doenças e qualidade culinária, oferecendo ao produtor rural opções que garantam retorno econômico real.
O projeto também promove a formação acadêmica, integrando estudantes de agronomia e zootecnia na rotina de pesquisa e extensão. Com a proximidade de um novo ciclo agrícola, a equipe planeja realizar um Dia de Campo em Santo Antônio de Leverger para disseminar as técnicas de produção de feno e apresentar os resultados das novas cultivares avaliadas, consolidando a transferência de tecnologia para o setor produtivo. Mais informações sobre o trabalho podem ser acompanhadas através de fontes oficiais como o g1 Mato Grosso.