Certificação de lã impulsiona receita de produtores no Rio Grande do Sul

Certificação de lã impulsiona receita de produtores no Rio Grande do Sul

A certificação da produção de lã no Rio Grande do Sul consolidou-se como uma ferramenta estratégica para o aumento da rentabilidade no campo. Dados apresentados durante o 3º Dia da Lã, realizado em Sant’Ana do Livramento, revelam que propriedades que adotaram o processo de qualificação registraram um incremento expressivo na receita por animal, evidenciando o impacto direto da valorização da fibra no resultado financeiro dos criadores.

Impacto financeiro e valorização da lã gaúcha

O programa, coordenado pela Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), atingiu a marca de quase 600 mil quilos de lã certificada ao longo de quatro safras. Em 2024, os dados apontaram uma alta de 52,8% no valor líquido do produto e um salto de 65,1% na receita por ovelha, comparado ao período anterior. Esse desempenho demonstra que o conhecimento técnico sobre a qualidade da fibra permite aos produtores uma negociação mais assertiva no mercado.

A remuneração do setor é pautada pela micronagem, que define a espessura da fibra. Conforme os indicadores divulgados, os valores de referência variam significativamente: enquanto lãs de 31 micra são cotadas a US$ 2,40 por quilo, fibras mais finas, de 18 micra, podem alcançar US$ 10 por quilo antes das despesas de comercialização. O zootecnista Leonardo Santos Farion destaca que muitos produtores ainda perdem oportunidades de lucro por desconhecerem os atributos técnicos de seus lotes.

Recuperação do mercado internacional e demanda

O cenário para a comercialização da fibra apresenta sinais de otimismo após um período de instabilidade global. Fatores como a pandemia, a inflação e os conflitos internacionais haviam pressionado a demanda nos últimos anos. Contudo, a redução dos rebanhos em países produtores e a diminuição dos estoques globais criaram um ambiente favorável para a valorização da lã, com a procura voltando a crescer em 2026.

Santiago Onande, presidente da União de Consignatários e Rematadores de Lã do Uruguai, reforça que a tendência de recuperação é observada internacionalmente. Esse movimento oferece uma janela de oportunidade para os produtores gaúchos, que detêm mais de 90% da lã com valor têxtil produzida no Brasil.

Desafios para a sustentabilidade da cadeia produtiva

Apesar dos ganhos financeiros, a Arco aponta que o crescimento do programa enfrenta desafios estruturais. A prioridade atual da instituição é a qualificação da mão de obra especializada e a expansão da presença da lã certificada tanto no mercado interno quanto no exterior. Além disso, a atualização do Manual de Normas de Acondicionamento, em parceria com o Senar, é vista como um passo essencial para manter a competitividade.

Existe ainda uma preocupação latente quanto à base produtiva. O presidente da Arco, Edemundo Gressler, alertou para a redução dos rebanhos de raças laneiras no estado, impulsionada pela migração de criadores para o foco exclusivo na produção de carne. O setor teme que essa mudança de perfil comprometa, a longo prazo, a oferta de lã de alta qualidade que caracteriza a pecuária gaúcha.

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