Mobilidade social no Brasil é travada por raça, gênero e origem familiar

Mobilidade social no Brasil é travada por raça, gênero e origem familiar

A estrutura socioeconômica brasileira enfrenta barreiras profundas que impedem a ascensão de milhões de cidadãos. O recém-lançado Atlas da Mobilidade Social revela que o destino financeiro de um indivíduo no país é fortemente condicionado por fatores como gênero, raça e a origem familiar, consolidando um cenário de baixa mobilidade intergeracional que se mantém resiliente ao longo das décadas.

A plataforma, desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) em parceria com o Prospera Lab, utiliza dados administrativos da Receita Federal e de outros órgãos governamentais para mapear como a pobreza se perpetua. O estudo, fundamentado na metodologia do artigo acadêmico Intergenerational Mobility in the Land of Inequality, aponta que romper o ciclo de vulnerabilidade é uma exceção, não a regra, no território brasileiro.

O impacto da raça e do gênero na trajetória econômica

Os dados demonstram que a cor da pele e o sexo biológico funcionam como determinantes críticos na manutenção da pobreza. Entre jovens brancos nascidos nos 25% mais pobres da população, 36,3% permanecem nesse estrato na vida adulta. Para os não brancos, a probabilidade de estagnação na base da pirâmide salta para 51,6%, evidenciando o peso da desigualdade racial.

A disparidade de gênero é igualmente acentuada. Enquanto cerca de 32,9% dos homens oriundos de famílias pobres permanecem no mesmo grupo, a proporção entre as mulheres atinge 65,1%. Quando cruzados os recortes de raça e gênero, o cenário torna-se ainda mais desafiador: 69% das mulheres não brancas permanecem na base da distribuição de renda, contra 52,9% das mulheres brancas.

A persistência da pobreza entre gerações

A origem familiar atua como um filtro poderoso para o sucesso financeiro. Filhos de pais situados nos 25% mais pobres têm 48% de chance de permanecerem no mesmo grupo ao atingirem a vida adulta. Apenas 8,32% conseguem alcançar o topo, integrando o grupo dos 25% mais ricos, enquanto uma parcela ínfima de 1,28% chega ao estrato dos 10% com maior renda.

Em contrapartida, o privilégio de nascer em famílias de maior renda garante uma inércia positiva. Jovens cujos pais pertenciam aos 25% mais ricos têm 56,5% de probabilidade de permanecerem nesse estrato. O estudo aponta que, ao comparar gerações nascidas entre 1983 e 1990, houve apenas uma variação marginal na capacidade de ascensão, confirmando que a estrutura de oportunidades no Brasil permanece estática.

Disparidades regionais e o papel da educação

A geografia do país também dita as chances de progresso. As regiões Sul, Sudeste e partes do Centro-Oeste concentram as maiores probabilidades de mobilidade ascendente. Em contraste, o Norte e o Nordeste apresentam taxas de mobilidade significativamente menores, onde a pobreza tende a ser mais persistente entre as gerações.

O contraste entre municípios é drástico. Em Assis Brasil (AC), 84,4% dos jovens de famílias pobres permanecem na base da renda, enquanto em Ponte Serrada (SC) esse índice cai para 2,13%. Segundo o Imds, a educação é o principal motor de mudança. Municípios com melhores resultados no Ideb e menor distorção idade-série apresentam maior potencial de mobilidade, reforçando a necessidade de políticas públicas integradas. Mais informações podem ser consultadas no site oficial https://atlasmobilidadesocial.org.br/.

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