Milhares de mulheres negras tomaram a orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, neste domingo (26), em uma mobilização que marcou a 12ª edição da Marcha das Mulheres Negras. O ato, que integra o calendário do Julho das Pretas, teve como eixos centrais a defesa da democracia, o combate ao racismo estrutural e a busca por políticas de reparação e bem-viver.
A manifestação ocorreu logo após as celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela, datas fundamentais para o movimento. O evento reuniu organizações, famílias e lideranças que buscam pautar a agenda pública com demandas por justiça social e condições dignas de existência para a população negra brasileira.
A luta por reparação e o enfrentamento ao racismo estrutural
Para as organizadoras, o conceito de bem-viver não é apenas um ideal, mas uma meta política que depende diretamente de medidas concretas de reparação. Clátia Vieira, coordenadora do Fórum Estadual de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, destaca que o racismo opera de forma conectada ao sistema econômico, gerando instabilidade e vulnerabilidade para as mulheres negras.
A pauta do movimento exige que o racismo seja tratado como um elemento estrutural da sociedade brasileira. Segundo as lideranças, é necessário que o Estado realize uma escuta ativa dessas mulheres para que políticas públicas consigam romper o ciclo de desemprego e desigualdade que historicamente afeta essa parcela da população.
Memória e continuidade da resistência política
A presença da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, foi constante durante o percurso. Sua imagem em faixas e camisetas reforçou a importância da participação política feminina, um projeto que a parlamentar defendia em vida. Marinete Silva, mãe de Marielle, esteve presente no ato e sublinhou que a ocupação das ruas é uma forma de manter vivo o legado de luta por direitos.
A educadora Bárbara Carine, que participou da marcha acompanhada de sua família, enfatizou a necessidade de incluir crianças nesses espaços de mobilização. Para ela, o evento é uma oportunidade de celebrar os avanços históricos, mas, sobretudo, de projetar um futuro que supere as pautas de sobrevivência imediata em direção a um projeto de vida plena.
Ancestralidade e pertencimento na cultura brasileira
A mobilização também foi um espaço de celebração cultural, com apresentações de grupos como Afrolaje, Angoleiras e Obara Ylê de Ouro. A arte serviu como ferramenta de resistência e conexão com a ancestralidade, sendo descrita por participantes como um exercício de pertencimento e orgulho identitário.
O racismo, segundo as manifestantes, também se manifesta através do apagamento histórico das contribuições negras ao desenvolvimento do país. O casal Cinthia Garcia e Laísse Santos, que atua com afroturismo em Maricá, reforçou que a luta atual envolve o resgate de histórias invisibilizadas e o reconhecimento das tecnologias e saberes que construíram as cidades brasileiras. Saiba mais sobre as pautas do movimento no portal da Agência Brasil.