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Mato Grosso é um estado privilegiado em termos de biodiversidade. É o único do Brasil a ter

, sozinho, três dos principais biomas do país: a Amazônia, o Cerrado e Pantanal. No entanto, esses grandes sistemas ecológicos têm sofrido com os incêndios florestais, registrados anualmente em grandes proporções. Monitoramento dos focos aponta que o território mato-grossense tem a maior área queimada acumulada nos últimos 40 anos.

Também ao longo desses anos tem sido verificada uma intensificação da mudança do comportamento do fogo, de forma não homogênea. De acordo com pesquisadores e ambientalistas, a mudança no regime das queimadas, conjunto de características que determinam como o fogo se manifesta em uma paisagem, como frequência, intensidade, área afetada e sazonalidade, é um fenômeno crescente e desigual entre os três biomas.

Na Amazônia, por exemplo, os incêndios eram praticamente ausentes em florestas intactas e, no Pantanal, era controlado pelas cheias. Já no Cerrado, o fogo sempre teve papel ecológico relevante. Essas alterações resultam da pressão humana, mudanças climáticas e uso inadequado do fogo, o que desregula dinâmicas ecológicas essenciais à preservação ambiental. E, a continuidade desse cenário representa sérios riscos não apenas para os ecossistemas e comunidades locais, mas também para a estabilidade climática.

AMAZÔNIA - Conforme os dados do MapBiomas, o bioma amazônico foi a mais atingido em 2024, com 17,9 milhões de hectares consumidos pelas chamas, o maior registro já computado desde 1985. Além disso, pela primeira vez em toda a série histórica, a área de floresta queimada na região superou a de pastagens.

Diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Ane Alencar, tem documentado como o desmatamento e a degradação florestal vêm criando condições propícias para que o fogo se espalhe por áreas antes úmidas e protegidas por dosséis fechados.

Segundo ela, o fogo hoje é um vetor de transformação da floresta, enfraquecendo sua resiliência e acelerando o processo de degradação da floresta, tornando-a mais inflamável. “O uso recorrente do fogo em áreas desmatadas e abandonadas contribui para manter uma paisagem permanentemente inflamável, que ameaça inclusive as florestas remanescentes. O aquecimento global intensifica esse cenário, tornando mais longas e severas as estações secas”, afirma.

CERRADO - No Cerrado, 9,7 milhões de hectares foram queimados no ano passado, dos quais 8,2 milhões (85%) correspondiam à vegetação nativa. Embora o número absoluto pareça alto, ele não é, por si só, alarmante, já que o bioma é um ambiente naturalmente dependente do fogo.

Muitas espécies vegetais precisam do calor para germinar, rebrotar ou florescer, e os ciclos naturais de fogo, com intervalos de dois a cinco anos, ajudam a manter a biodiversidade. Os especialistas apontam que o verdadeiro problema está em como esse fogo tem ocorrido, ou seja, com alterações no regime natural, como aumento da frequência, intensidade inadequada e uso fora de época. Hoje, as queimadas são muitas vezes provocadas por manejo inadequado, incêndios acidentais ou criminosos.

Professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Rio Claro e especialista na ecologia do fogo, Alessandra Fidelis, alerta que os regimes de fogo no Cerrado encontram-se alterados, como por exemplo em épocas inadequadas, afetando assim a regeneração das espécies nativas.

“O problema do Cerrado não é o fogo em si, mas quando, onde e como ele ocorre: tanto queimar demais como não queimar podem trazer consequências igualmente prejudiciais para a biodiversidade”, explica.

MANEJO DO FOGO – Entre as estratégias está o Manejo Integrado do Fogo (MIF), que reconhece que o fogo, em vez de ser apenas combatido ou proibido, pode ser usado de forma controlada e planejada como ferramenta de manejo ambiental, redução de risco e conservação.

A pesquisadora Natashi Pillon está começando um experimento para adaptar o MIF para o Cerrado, especialmente, com foco na conservação da biodiversidade. O projeto reconhece os avanços do MIF na proteção de áreas sensíveis e visa, em conjunto com os gestores, avançar na lapidação da prática para fins de conservação e proteção da biodiversidade de espécies e ecossistemas dependentes do fogo.

Conforme Pillon, os modelos de MIF atualmente aplicados no país enfrentam desafios para alcançar resultados mais amplos em termos de conservação. Embora muitos enfoquem aspectos importantes como a redução de combustível e a proteção de áreas agrícolas, ainda há espaço para avanços na incorporação do papel ecológico do fogo e das necessidades específicas de cada bioma.

PANTANAL - Já o Pantanal, embora apresente área absoluta menor, registrou a maior proporção relativa de área queimada entre os biomas do Brasil, com 61,8% da sua superfície impactada pelo fogo entre 1985 a 2024. O bioma pantaneiro sempre foi regulado pelo pulso das águas.

Por lá, os ciclos anuais de cheia e seca determinavam quando e onde a vegetação secava. Esse equilíbrio, no entanto, vem sendo profundamente alterado. Cheias mais curtas, irregulares ou até ausentes em algumas regiões têm permitido o acúmulo de biomassa seca em áreas antes permanentemente alagadas.

Os estudos revelam que a alteração desse regime hídrico tem sido um fator-chave para o agravamento dos incêndios florestais no Pantanal. “Temos avançado na implantação do Manejo Integrado do Fogo, mas ainda precisamos de investimentos expressivos em prevenção, especialização de profissionais, pesquisa e infraestrutura. A adoção desse conceito exige um trabalho conjunto entre sociedade civil, instituições de pesquisa e poder público”, disse Leonardo Gomes, diretor executivo do SOS Pantanal, tem defendido a adoção e fortalecimento do Manejo Integrado do Fogo (MIF) no bioma.

Conforme ele, a perda com os incêndios não é só árvores ou animais. “Estamos perdendo um patrimônio natural que regula o clima, sustenta comunidades inteiras e nos conecta com o futuro. Se o Pantanal continuar queimando nessa escala, vamos sentir os impactos muito além da fronteira do bioma”, acrescentou.

Coordenador de monitoramento da The Nature Conservancy Brasil (TNC Brasil), Mário Barroso, frisa ainda como o MapBiomas, uma iniciativa colaborativa que mapeia a cobertura e o uso da terra no Brasil e em outros países da América do Sul, com base em imagens de satélite e tecnologias de sensoriamento remoto, tem sido fundamental para aprimorar a gestão ambiental.

“Ter informações claras sobre o regime de fogo sempre foi um desafio. Hoje com o MapBiomas temos uma visão muito mais clara das transformações do regime do fogo nos biomas e de como devemos orientar as políticas públicas e o engajamento das pessoas para tratar desse tema”, comenta.

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