Epidemia do suco: a busca perigosa pelo corpo perfeito e os riscos dos anabolizantes

Epidemia do suco: a busca perigosa pelo corpo perfeito e os riscos dos anabolizantes

A morte súbita do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, aos 22 anos, trouxe à tona uma preocupação crescente entre especialistas de saúde: a disseminação do uso de anabolizantes, popularmente conhecidos nas academias como “suco”. O caso, ocorrido em maio, em São Paulo, serviu como um alerta trágico sobre os perigos ocultos por trás da busca incessante pelo padrão estético idealizado nas redes sociais.

Riscos cardiovasculares e impactos sistêmicos

O uso recreativo de substâncias hormonais para fins estéticos transcende o universo do fisiculturismo, tornando-se um desafio de saúde pública. Segundo o médico Clayton Macedo, coordenador do projeto “Saindo do Suco com Segurança”, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), usuários de esteroides enfrentam um risco de morte três vezes maior do que a população geral. Além disso, a probabilidade de desenvolver miocardiopatia, uma condição grave que compromete o músculo cardíaco, é nove vezes superior.

As complicações não se limitam ao coração. O consumo dessas substâncias pode desencadear hepatite medicamentosa, tumores hepáticos, falência renal e severas alterações hormonais e comportamentais. O cenário é agravado pela combinação indiscriminada de diferentes compostos, incluindo produtos sem qualquer validação científica para uso humano, o que potencializa os danos ao organismo a curto e longo prazo.

A pressão estética e o ciclo do vício

Para muitos usuários, a decisão de recorrer aos hormônios está enraizada em traumas de infância ou na baixa autoestima. O influenciador Paulo Gab, que buscou ajuda após observar amigos enfrentarem graves problemas renais, relata que o uso era visto como uma “força motriz” para acelerar resultados. A pressão por um corpo musculoso, muitas vezes alimentada por influenciadores digitais, cria uma falsa sensação de segurança que ignora os limites biológicos.

O processo de interrupção é complexo e exige suporte multidisciplinar. O professor de bioquímica Paulo de Melo, que também abandonou o uso, descreve o desafio psicológico de aceitar a perda da massa muscular artificialmente conquistada. A comparação com a obsessão pela aparência, tema abordado em produções culturais recentes, ilustra o peso psicológico que muitos enfrentam ao tentar retomar o controle sobre a própria saúde.

Apoio especializado para a interrupção do uso

O projeto da Unifesp oferece um suporte essencial para aqueles que desejam interromper o consumo, contando com uma equipe composta por nutricionistas, psicólogos e endocrinologistas. Atualmente, a iniciativa acompanha 162 pacientes, com idade média de 38 anos, abrangendo diversas profissões, desde advogados até policiais, o que reforça que o problema é transversal à sociedade.

Conforme apurado pelo portal g1, a iniciativa foca não apenas na desintoxicação física, mas na reestruturação da autoimagem do paciente. Para os especialistas, o acompanhamento médico é indispensável, embora ressaltem que não existe dose segura para o uso de hormônios sem indicação clínica. A decisão de parar, embora difícil, é apontada pelos pacientes como um passo fundamental para a longevidade e a preservação da vida.

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