A expectativa de influência do fenômeno El Niño sobre o regime de chuvas tem elevado o nível de alerta entre os produtores rurais para a safra 2025/26. Em Mato Grosso, estado que consolidou o algodão como cultura estratégica de segunda safra, o planejamento agrícola torna-se um exercício complexo, onde o comportamento das precipitações durante o plantio da soja dita o ritmo e a viabilidade das lavouras subsequentes.
O cenário atual exige que os agricultores antecipem decisões críticas. Como a soja ocupa a posição de protagonista no calendário, qualquer oscilação no cronograma de semeadura reduz a janela de plantio das culturas de sucessão, como o milho e o próprio algodão. Essa restrição aumenta a exposição das plantas a períodos de déficit hídrico, justamente em fases em que a demanda por umidade é determinante para o sucesso do ciclo produtivo.
O desafio da janela de plantio para o algodão
Para o produtor Tiago Cinpak, residente em Lucas do Rio Verde, a estratégia de plantio prioriza a segurança hídrica. Em sua propriedade, o cultivo da soja foi iniciado em áreas irrigadas, aproveitando as precipitações registradas nos dias 7 e 8 de setembro. A cautela é justificada pela necessidade de evitar falhas na germinação, que, em um contexto de custos elevados, representariam prejuízos financeiros significativos.
A logística de sucessão é rigorosa. Segundo Cinpak, a soja precisa ser estabelecida até o dia 10 de outubro para que o algodão seja semeado em janeiro de 2027, mantendo-se dentro da janela ideal. Embora o milho possua uma margem de manobra um pouco mais elástica, com plantio viável até 20 de fevereiro, a dependência das chuvas permanece como o fator de risco predominante para a estabilidade da renda do produtor.
Genética como pilar de resiliência no campo
Diante da instabilidade climática, a seleção de variedades tem se tornado uma ferramenta de manejo essencial. Jefferson Andrade, diretor comercial da Polato Sementes, destaca que a adoção de materiais com ciclo mais curto permite antecipar a colheita, reduzindo o tempo de exposição da cultura a estresses ambientais. A rusticidade das plantas, que confere maior tolerância a períodos de seca, também figura como prioridade na escolha dos sementes.
O setor de melhoramento genético tem avançado para atender a essas demandas específicas. Alexandre Santaella, gerente de marketing de algodão da BASF, aponta que o foco atual está no desenvolvimento de plantas com maior capacidade de enraizamento e resistência a nematoides. Além disso, a redução do ciclo das variedades, que passou de 200 para cerca de 160 dias, tem sido uma conquista técnica fundamental para manter a produtividade em janelas cada vez mais curtas.
Monitoramento de pragas sob novas condições climáticas
O impacto do El Niño transcende a disponibilidade de água, alterando também a dinâmica populacional de pragas. Temperaturas mais elevadas tendem a acelerar o ciclo biológico de insetos sugadores, como a mosca-branca, que apresenta pressão crescente tanto na soja quanto no algodão. Esse cenário exige um planejamento rigoroso de controle fitossanitário.
A indústria química tem respondido com a criação de novas moléculas e estratégias de manejo integrado. A recomendação dos especialistas é a combinação de diversas ferramentas, incluindo a rotação de ativos e o uso de tecnologias de precisão, visando ampliar a eficiência do controle. Para o produtor, o sucesso na safra 2025/26 dependerá da integração entre clima, genética e manejo, consolidando uma abordagem resiliente frente às incertezas do tempo.