Pesquisadores da Universidade de Vermont identificaram o primeiro caso documentado de câncer transmissível em peixes. O estudo, publicado na revista Nature, revela que melanomas em bagres do lago Memphremagog, localizado na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, não surgem de mutações individuais, mas da propagação de células tumorais entre os animais.
A dinâmica biológica do melanoma transmissível
Diferente de infecções virais como o HPV, onde um agente externo induz o tumor, o câncer transmissível ocorre quando a própria célula maligna migra de um hospedeiro para outro. O sequenciamento genético confirmou que os tumores encontrados nos bagres compartilham mutações idênticas, indicando uma linhagem comum originada de um único animal fundador.
A análise comparativa revelou que 59% das alterações genéticas nos tumores eram compartilhadas entre os peixes analisados, enquanto o tecido saudável de cada indivíduo apresentava mutações únicas. Esse padrão genético descarta a hipótese de que os melanomas seriam causados por poluentes ambientais no lago, uma suspeita inicial que surgiu após enchentes na região em 2011.
Comparação com outros casos na natureza
O fenômeno de tumores transmissíveis é extremamente raro e, até o momento, havia sido registrado em apenas três grupos de animais: cães, diabos-da-tasmânia e moluscos bivalves. O bagre torna-se a quarta espécie identificada e a primeira em um ambiente de água doce.
Enquanto em algumas espécies o câncer é letal e causa declínio populacional, nos bagres a doença parece permitir uma convivência prolongada. A ausência de microrganismos associados aos tumores reforça que a transmissão ocorre via contato direto entre as células cancerosas, possivelmente durante períodos de desova ou aglomerações físicas.
Implicações para a oncologia e conservação
Especialistas reforçam que o câncer não é uma doença contagiosa em humanos e não há risco de transmissão para pessoas, mesmo através do consumo ou contato com a água. A descoberta, contudo, abre novas fronteiras para a pesquisa médica ao questionar como células tumorais conseguem contornar o sistema imunológico de um hospedeiro diferente do original.
Entender esses mecanismos de evasão imunológica pode oferecer insights valiosos para o desenvolvimento de terapias oncológicas mais eficazes. Para a ecologia, o achado altera o protocolo de monitoramento de fauna, exigindo que órgãos ambientais considerem a transmissão biológica ao investigar lesões em animais selvagens, indo além da análise de contaminação química.