A agricultura brasileira vive um momento de transição tecnológica impulsionado pela expansão dos bioinsumos. O uso de microrganismos benéficos, que atuam diretamente na nutrição das plantas e no controle de pragas, tornou-se um pilar estratégico para a sustentabilidade e a eficiência econômica das lavouras de soja. Esse avanço será o tema central da XXII Reunião da Rede de Laboratórios para Recomendação, Padronização e Difusão de Tecnologias de Inoculantes Microbianos de Interesse Agrícola (RELARE).
O evento, que ocorre nos dias 19 e 20 de agosto, no Centro de Eventos Sistema FIEP, em Curitiba (PR), reunirá cerca de 200 especialistas, incluindo pesquisadores, representantes da indústria e consultores técnicos. A iniciativa é promovida pela Embrapa, em parceria com a Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos (ANPiiBio) e a CropLife Brasil, consolidando um espaço de debate sobre protocolos de qualidade e validação de novas tecnologias biológicas.
Avanço dos bioinsumos na eficiência da soja
A cultura da soja é o maior exemplo de sucesso na aplicação de tecnologias biológicas no Brasil. A Fixação Biológica do Nitrogênio (FBN), técnica amplamente difundida pela pesquisa agropecuária, permite que as plantas absorvam o nutriente essencial diretamente através da atividade de bactérias no solo, eliminando a necessidade de fertilizantes nitrogenados sintéticos em grande escala.
Atualmente, aproximadamente 85% da área cultivada com soja no país utiliza essa tecnologia. O impacto econômico é expressivo: na última safra, a substituição de insumos químicos gerou uma economia estimada em US$ 28 bilhões. Além do ganho financeiro, o benefício ambiental é notável, com a redução da emissão de 280 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, um feito que reforça a viabilidade do modelo.
Tecnologias biológicas em novas culturas
O sucesso na soja abriu caminho para a aplicação de bioinsumos em outras culturas de alta demanda nutricional, como milho, trigo, arroz e cana-de-açúcar. No caso do milho, o uso de inoculantes já movimenta mais de 40 milhões de doses anuais. Embora não substituam totalmente os fertilizantes químicos, esses microrganismos aumentam a eficiência de absorção, permitindo reduções de até 25% na adubação de cobertura.
As pesquisas atuais também focam em microrganismos mobilizadores de fósforo, que acessam formas do nutriente retidas no solo e indisponíveis para a planta. Esse avanço tecnológico é fundamental para reduzir a dependência de fertilizantes importados e tornar o sistema produtivo mais resiliente diante da volatilidade dos preços internacionais de insumos.
Integração entre ciência e setor produtivo
A XXII RELARE busca estreitar a conexão entre a bancada do laboratório e o campo. A programação inclui uma Rodada de Negócios, onde pesquisadores podem apresentar ativos biológicos diretamente a representantes da indústria. O objetivo é acelerar a chegada de novas soluções ao mercado, garantindo que a inovação científica acompanhe a velocidade das demandas do setor produtivo.
A comissão organizadora reforça que a adoção de bioinsumos é um caminho sem volta, impulsionado pela necessidade de reduzir custos e mitigar impactos ambientais. Com o apoio de instituições como o INCT MicroAgro e a Fundação Araucária, o evento se posiciona como o principal fórum de discussão sobre o futuro da biotecnologia aplicada à agricultura nacional.