O período de nascimento na pecuária de corte representa um dos momentos mais críticos para a sanidade animal nas propriedades brasileiras. A proteção dos bezerros recém-nascidos contra a bicheira de umbigo, causada pela mosca Cochliomyia hominivorax, tornou-se um desafio complexo devido à crescente resistência parasitária aos tratamentos convencionais.
A infestação ocorre rapidamente, pois a mosca é atraída pela mucosa exposta do cordão umbilical. Em menos de 24 horas, as larvas eclodem e iniciam a destruição dos tecidos, podendo evoluir para infecções bacterianas graves, como o “umbigo duro” ou inflamações articulares, que comprometem severamente o desenvolvimento e a sobrevivência do animal.
Desafios da resistência aos tratamentos tradicionais
Durante mais de três décadas, o manejo sanitário nas maternidades baseou-se quase exclusivamente no uso preventivo da doramectina. Contudo, o emprego contínuo dessa molécula resultou na seleção de populações de moscas resistentes, reduzindo drasticamente a eficácia do controle em campo.
O médico-veterinário Fernando Borges, especialista em Medicina Veterinária, aponta que estudos realizados no Brasil e na Argentina confirmam a falha terapêutica da doramectina. O especialista alerta que a tentativa de compensar essa perda de eficácia com o aumento das dosagens eleva perigosamente os riscos de intoxicação e mortalidade entre os bezerros, além de não resolver o problema sanitário.
Eficácia da molécula fluralaner no manejo neonatal
Para mitigar os impactos da resistência, a ciência veterinária tem buscado alternativas baseadas na rotação de princípios ativos. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em conjunto com a MSD Saúde Animal, demonstrou resultados promissores com o uso do fluralaner.
A substância, que atua de forma sistêmica através de aplicação dorsal, apresentou uma taxa de proteção preventiva de 96% nos testes de campo com a formulação a 5%. A adoção dessa tecnologia permite uma proteção robusta logo nos primeiros dias de vida, diminuindo a necessidade de intervenções corretivas e o uso excessivo de antibióticos.
Impacto na produtividade e boas práticas
Segundo Daniel Rodrigues, gerente técnico da unidade de Ruminantes da MSD Saúde Animal, a prevenção eficaz é o pilar para evitar o surgimento de animais de refugo. Ao garantir a saúde do umbigo no nascimento, o produtor assegura um desenvolvimento mais uniforme do rebanho e reduz os custos operacionais associados ao tratamento de complicações secundárias.
O cenário atual exige que os pecuaristas revisem seus protocolos sanitários em parceria com profissionais qualificados. A transição para novas tecnologias preventivas, aliada a um manejo rigoroso, é essencial para manter a rentabilidade e o bem-estar animal em sistemas de produção extensivos.