Angela Davis e a resistência em Paraty
Durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a ativista e pesquisadora Angela Davis protagonizou um dos momentos mais aguardados da programação. Em evento realizado no Sesc Caborê, mediado pela jornalista Flávia Oliveira, a pensadora norte-americana conectou a luta histórica do movimento negro com questões contemporâneas urgentes, como o racismo ambiental e a gentrificação que afeta as comunidades tradicionais em Paraty.
Davis destacou a importância da cultura como ferramenta de transformação social. Segundo a ativista, a literatura e a arte permitem alcançar dimensões de resistência que não seriam acessíveis por outros meios. Ela enfatizou que a luta pela liberdade possui uma face cultural indissociável, celebrando a presença de ancestrais na cidade fluminense, palco do festival literário que se encerrou no dia 26 de julho de 2026.
Crítica ao capitalismo e ao racismo ambiental
Um dos pontos centrais da fala de Angela Davis foi a denúncia dos impactos do sistema capitalista sobre o meio ambiente e as populações vulneráveis. A filósofa apontou que a busca desenfreada por lucro, protagonizada por bilionários e trilionários, resulta na exploração predatória da terra e na expulsão de moradores de suas terras ancestrais, configurando um cenário de racismo ambiental.
Para a ativista, o modelo econômico atual é o principal obstáculo para uma vida justa e equilibrada no planeta. Ela argumentou que a destruição dos recursos naturais caminha lado a lado com a exploração dos seres humanos, alertando que a elite econômica global não representa o futuro da humanidade, mas sim a causa das dificuldades enfrentadas por grande parte da população mundial.
Diálogo com o pensamento brasileiro
Ao longo da conversa, Angela Davis prestou homenagens a figuras fundamentais do pensamento negro brasileiro. A autora citou Conceição Evaristo, colocando-a no mesmo patamar de relevância de ícones como Toni Morrison e Nina Simone. A ativista também celebrou o conceito de “escrevivência”, reforçando a necessidade de que pessoas negras contem suas próprias histórias para romper com a hegemonia da experiência branca.
A filósofa também demonstrou profunda admiração por Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez. Ao mencionar o conceito de “Amefricanidade” de Lélia Gonzalez, Davis ressaltou a importância de integrar a luta indígena aos debates de gênero, raça e classe. Ela reforçou que o internacionalismo foi uma de suas primeiras iluminações políticas, conectando as lutas ao redor do globo, desde a revolução argelina até os movimentos sociais no Brasil.
Mobilização contra o autoritarismo
Refletindo sobre o cenário político atual, Angela Davis alertou para o avanço de governos autoritários e fascistas na América Latina, Europa e Estados Unidos. Ela enfatizou que o poder do povo é superior a essas ideologias e convocou a sociedade a não permitir que candidatos alinhados ao fascismo ocupem espaços de poder. A ativista também celebrou as conquistas brasileiras no acesso de estudantes negros às universidades, incentivando a continuidade da luta por direitos, como a redução da jornada de trabalho.
Ao rememorar o período em que esteve presa, Davis reiterou que a força da mobilização coletiva é capaz de impedir decisões arbitrárias de quem detém o poder. Ela concluiu reforçando que a união entre pessoas, ultrapassando fronteiras geográficas, é a chave para promover mudanças estruturais e garantir um futuro mais justo. Para mais informações sobre o evento, acompanhe a cobertura da Agência Brasil.