O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass, ocorrida em agosto de 2024, trouxe à tona falhas sistêmicas que culminaram na tragédia com 62 vítimas. O documento aponta que a atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) foi um fator contribuinte para o acidente, ao permitir que a companhia aérea mantivesse suas operações mesmo diante de recorrentes violações de segurança identificadas em fiscalizações.
Falhas na fiscalização e o papel da Anac
Entre 2022 e 2024, a Anac notificou a Voepass em dez ocasiões distintas por irregularidades no sistema de degelo das aeronaves. Segundo a investigação, a empresa frequentemente reportava a conclusão de reparos que, na prática, nunca foram realizados. Esse sistema de degelo é apontado pelo Cenipa como um dos elementos centrais que levaram à perda de sustentação da aeronave.
Em entrevista ao Fantástico, o diretor-presidente da Anac, Álvaro Faierstein, reconheceu a gravidade da situação. Ao ser questionado se a agência teria sido enganada pela companhia, o executivo foi direto: “Eu posso dizer que sim. Muito sim. O nosso time técnico fez análises baseadas em documentos que não eram documentos verdadeiros”.
Cultura organizacional e omissões da Voepass
O relatório do Cenipa, que soma 258 páginas, detalha uma cultura organizacional na Voepass que permitia o adiamento sistemático de manutenções críticas. Em 2023, a companhia concentrou 82% das falhas apontadas pela Anac entre as empresas aéreas brasileiras, embora representasse apenas 0,6% do total de voos realizados no país naquele período.
Faierstein reforçou que a equipe técnica da agência já havia detectado uma degradação operacional na empresa antes do acidente. O presidente da Anac afirmou que a companhia aérea utilizava “reportes mentirosos” para contornar exigências técnicas, o que dificultava a ação punitiva imediata dos fiscais em campo.
Mudanças nos processos de decisão da agência
Diante das conclusões da investigação, a Anac anunciou uma mudança estrutural em seus processos de suspensão de empresas aéreas. A partir de agora, a decisão de manter ou não uma companhia em operação deixará de ser uma atribuição exclusiva da área técnica, passando a envolver diretamente a diretoria da agência para garantir uma visão mais abrangente e estratégica.
O acidente, ocorrido em Vinhedo (SP), foi marcado por uma sucessão de erros, incluindo a decisão da tripulação de manter a aeronave em altitudes com condições favoráveis à formação de gelo. Após a tragédia, a Anac suspendeu definitivamente as operações da Voepass em junho de 2025, enquanto as investigações criminais sobre o caso seguem em curso.