A posição de liderança do Brasil nas exportações globais de algodão não blinda o setor contra desafios estruturais persistentes. Durante a abertura do 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado no Expominas, em Belo Horizonte (MG), produtores e autoridades debateram a necessidade urgente de mitigar a dependência de insumos importados e reduzir os custos operacionais que pressionam as margens financeiras da atividade.
O evento, organizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), destacou que, embora mais de 97% da produção nacional atenda a padrões internacionais de qualidade, o cenário macroeconômico e as tensões geopolíticas exigem cautela. O momento atual é marcado pela busca por eficiência produtiva e pela necessidade de estabilidade jurídica para garantir a competitividade do agronegócio nacional.
Cotonicultura e os desafios de gestão e infraestrutura
O presidente da Abrapa, Gustavo Piccoli, enfatizou que o sucesso do setor foi construído sobre o investimento contínuo em sustentabilidade e tecnologia de precisão. Contudo, ele ressaltou que a manutenção dessa posição exige uma gestão rigorosa dentro das propriedades e um ambiente favorável fora da porteira, com investimentos estruturantes em logística.
“O momento é de reflexão e gestão. Nós produtores precisamos fazer a nossa parte, mas precisamos também de segurança jurídica, infraestrutura e política adequada”, afirmou Piccoli. O dirigente defendeu ainda a valorização das fibras naturais brasileiras como um pilar estratégico para o futuro da cotonicultura.
Tecnologia e especialização no campo
O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula Filho, reconheceu o alto grau de tecnificação das lavouras, que transformou a produtividade no Cerrado. Segundo o ministro, a cadeia do algodão é uma das mais especializadas do país, servindo como referência de inovação agrícola para o mundo.
Apesar do otimismo com a capacidade produtiva, o governo federal reconhece a vulnerabilidade causada pela importação maciça de fertilizantes. A exposição do produtor às variações de preços no mercado externo permanece como um dos principais entraves para a rentabilidade da safra.
Estratégias para autonomia em fertilizantes
Para enfrentar a dependência externa, o Ministério da Agricultura aposta no Profert (Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes). O plano foca na reativação de parques fabris, incluindo unidades de nitrogenados da Petrobras, visando reduzir a necessidade de importação de insumos essenciais.
A meta oficial é que, com a operação dessas plantas, o Brasil consiga suprir cerca de 35% da demanda nacional por nitrogenados. O ministro André de Paula reforçou que o desafio está sendo tratado com planejamento de longo prazo para garantir que o setor produtivo tenha maior previsibilidade e menor exposição a crises de abastecimento internacional.