A realidade do acesso ao cinema em Mato Grosso
Assistir a um filme em uma tela grande tornou-se um privilégio geográfico para a maioria dos mato-grossenses. Dados recentes revelam que apenas 15 dos 142 municípios do estado possuem salas de cinema comerciais, o que representa cerca de 10,56% do território estadual. Para os moradores das outras 127 cidades, a experiência cinematográfica exige planejamento, tempo e custos adicionais com deslocamento.
Essa concentração de infraestrutura cultural na Baixada Cuiabana e em polos regionais, como Sinop, Rondonópolis e Tangará da Serra, evidencia um abismo no acesso à arte. Enquanto a capital e cidades vizinhas como Várzea Grande concentram mais de 20 salas, grande parte do interior permanece desassistida, dependendo de viagens para acessar o circuito comercial tradicional de exibição.
Fatores econômicos e a viabilidade das salas
A escassez de cinemas fora dos grandes centros está diretamente ligada à complexidade financeira de manter uma operação comercial. Segundo Diego Baraldi, professor do curso de Cinema e Audiovisual da UFMT, a manutenção de uma estrutura de exibição exige investimentos elevados em equipamentos de projeção, sistemas de som e manutenção predial, custos que muitas vezes não são cobertos pela receita de ingressos em cidades menores.
O cenário reflete uma tendência nacional, onde menos de 10% dos municípios brasileiros contam com salas ativas. Para o especialista, a situação configura um desafio crítico de política pública, visto que o acesso à cultura é um direito constitucional. A desigualdade na distribuição desses espaços acaba por limitar o repertório cultural de populações inteiras, que dependem de iniciativas locais ou de longos trajetos para usufruir de lançamentos cinematográficos.
Adaptação e novas iniciativas no interior
Apesar das dificuldades, existem esforços para descentralizar a exibição de filmes. Em Nova Mutum, o projeto Cine 163, inaugurado em 2025, exemplifica como a adaptação às necessidades locais pode viabilizar o negócio. Administrado por Francielli Vila, o cinema busca entender o comportamento do público regional, diferenciando-se das grandes redes de shopping ao promover ações inclusivas, como as sessões azuis voltadas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Para famílias como a da professora aposentada Ana de Jesus, a presença de uma sala de cinema na própria cidade ou em regiões próximas transforma a convivência social. O que antes era uma jornada de centenas de quilômetros, como as viagens que Ana realizava de Pontes e Lacerda até Cuiabá, agora se torna um momento de lazer acessível. Essa mudança de paradigma reforça a importância de políticas que incentivem a ocupação cultural em municípios fora do eixo metropolitano, conforme reportado pelo g1.