Em 108 dos 142 municípios de Mato Grosso, a ausência de maternidades públicas transforma o ato de dar à luz em uma complexa logística de deslocamento. Para milhares de mulheres, o período gestacional é marcado pela necessidade de viajar para cidades de referência, enfrentando estradas, custos adicionais e o desgaste físico inerente a longas distâncias. O cenário revela uma realidade onde o acesso ao parto seguro depende de uma rede de transporte que nem sempre oferece a tranquilidade necessária para as futuras mães.
O sistema de saúde, regido pelas diretrizes do SUS, garante o atendimento, mas não estabelece um limite máximo de quilometragem para o deslocamento das gestantes. Essa lacuna geográfica é sentida intensamente em um estado de dimensões continentais, onde a falta de infraestrutura hospitalar local obriga famílias a planejarem cada etapa do nascimento como uma verdadeira operação de guerra.
Desafios logísticos e riscos nas estradas
A experiência de Maria Luiza Ferreira da Silva, moradora de Araguainha, ilustra o impacto dessa carência. Com uma gravidez de alto risco, ela precisou percorrer 250 km até Rondonópolis para receber atendimento especializado. O desgaste das viagens constantes, somado à ansiedade por possíveis intercorrências nas rodovias, compõe o cotidiano de quem vive em cidades sem estrutura hospitalar para partos.
Em Chapada dos Guimarães, a situação não é diferente. Gestantes como Thais Banegas precisam se deslocar até Cuiabá para o acompanhamento no terceiro trimestre. A dependência de rodovias com problemas de conservação e o custo com logística de transporte e alimentação tornam a reta final da gravidez um período de alta tensão, agravado por acidentes que, por vezes, envolvem ambulâncias municipais em trânsito.
A realidade dos municípios sem maternidade
Em Vila Bela da Santíssima Trindade, a falta de estrutura levou a situações atípicas, como o parto realizado pelo próprio prefeito, que é médico obstetra. Embora o atendimento básico seja garantido pelo Programa Saúde da Família, a ausência de uma ala materna local obriga puérperas a viajarem longas distâncias mesmo no pós-parto, como ocorreu com Lucimara de Oliveira, que precisou buscar tratamento para o filho recém-nascido em outra cidade poucos dias após a cesariana.
O Conasems argumenta que nem todos os municípios possuem demanda ou capacidade técnica para manter equipes obstétricas completas 24 horas por dia. Contudo, a insuficiência de serviços especializados é reconhecida por gestores, como em Primavera do Leste, onde a rede municipal busca alternativas por meio de convênios com hospitais particulares para suprir a ausência de maternidade pública própria.
Dados e perspectivas da rede de saúde
Levantamentos da Secretaria Estadual de Saúde (SES-MT) indicam que, apenas neste ano, mais de 2,7 mil nascimentos ocorreram fora do município de residência da mãe. O dado reforça a necessidade de um planejamento regionalizado que vá além do encaminhamento, buscando garantir que a assistência não seja apenas teórica, mas efetivamente acessível.
A legislação atual foca na garantia do atendimento regional, mas a ausência de uma definição clara sobre a distância máxima de deslocamento deixa as gestantes em uma zona de vulnerabilidade. Enquanto projetos de novas maternidades regionais aguardam viabilidade técnica e financeira, a população segue dependendo da organização das secretarias municipais para assegurar o direito básico ao nascimento.
Para mais detalhes sobre as políticas de saúde pública no estado, consulte o portal oficial do Ministério da Saúde.