Uma pesquisa conduzida pela Embrapa, em parceria com instituições acadêmicas, desenvolveu um método inovador para determinar a procedência geográfica da tainha (Mugil liza). O estudo utiliza a espectroscopia por Ressonância Magnética Nuclear (RMN) para identificar uma “impressão digital química” no músculo do peixe, permitindo rastrear onde o animal foi capturado com alta precisão. O avanço promete transformar a autenticação de produtos pesqueiros no mercado nacional.
Os resultados, publicados no periódico científico internacional Fishes, contaram com a participação de especialistas da Embrapa Agroindústria de Alimentos e da Embrapa Instrumentação, além de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O projeto recebeu suporte financeiro da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Tecnologia de ponta no rastreio da origem do pescado
A metodologia combina a espectroscopia de RMN de hidrogênio com a metabolômica, ciência que analisa as pequenas moléculas produzidas pelo organismo. Esse “raio-X” químico mapeia metabólitos que revelam o histórico de vida do peixe, incluindo sua alimentação, comportamento fisiológico e as condições de salinidade do ambiente em que habitou.
Diferente de métodos convencionais, a RMN oferece uma análise rápida e não destrutiva, funcionando como um “código de barras químico”. Os cientistas identificaram 23 compostos naturais, como lactato, creatina e taurina, que variam conforme a região de captura, garantindo uma diferenciação clara entre amostras provenientes de locais distintos.
Impacto da hipersalinidade na assinatura metabólica
Um dos pontos centrais da investigação foi a análise das tainhas capturadas na Lagoa de Araruama (RJ), reconhecida como a maior lagoa hipersalina permanente do mundo. O ambiente extremo impõe adaptações fisiológicas específicas aos peixes, que ficam registradas em seu perfil metabólico.
O estudo demonstrou que a osmorregulação e o uso de aminoácidos são diretamente afetados pela salinidade elevada da região. Essas marcas bioquímicas únicas permitem que o pescado daquela localidade seja distinguido com segurança de exemplares coletados em outras áreas, como a Baía de Sepetiba (RJ) ou o litoral de Santa Catarina.
Combate a fraudes e valorização da produção regional
A aplicação prática dessa tecnologia é vasta, abrangendo desde o combate a fraudes comerciais e substituição de espécies até o suporte técnico para processos de Indicação Geográfica (IG). A capacidade de certificar a origem do produto protege o consumidor e agrega valor econômico aos pescadores locais.
Além da RMN, o trabalho integrou ferramentas de inteligência artificial para otimizar a análise de dados. Segundo os pesquisadores, a técnica não apenas fortalece a segurança alimentar, mas também oferece um novo padrão de fiscalização para o setor pesqueiro, consolidando o uso da ciência de dados na rastreabilidade de alimentos. Para mais detalhes sobre o estudo, acesse o artigo original em Fishes.