O financiamento do agronegócio brasileiro vive um momento de transformação estrutural, com o mercado de capitais consolidando sua participação ao responder por cerca de 30% dos recursos destinados ao setor. Durante o 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio, organizado pela Abag, especialistas destacaram a ascensão de instrumentos como CRAs, Fiagros e CPRs, que democratizaram o acesso ao crédito. Contudo, esse crescimento esbarra em um desafio persistente: a fragilidade da proteção securitária no campo.
Expansão do crédito e democratização via Fiagro
A democratização do acesso ao financiamento agrícola ganhou tração com o Fiagro. Em um período de quatro anos, o instrumento alcançou a marca de 600 mil investidores, atraindo pessoas físicas devido à sua acessibilidade. Enquanto o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) mantém um ticket médio de R$ 43 mil, o Fiagro opera com valores próximos a R$ 1 mil, facilitando a entrada de novos perfis no mercado.
Fabiana Perobelli, superintendente de Relacionamento com Clientes da B3, enfatiza que a transparência é o pilar para a sustentabilidade desse movimento. Após episódios que elevaram a percepção de risco, o mercado busca agora uma normalização baseada na qualidade da informação. A clareza sobre as operações permite isolar efeitos sistêmicos, garantindo que o investidor compreenda a saúde financeira das empresas emissoras e a real natureza dos riscos envolvidos.
O seguro rural como elo crítico de vulnerabilidade
Apesar da sofisticação financeira, o produtor rural permanece exposto a intempéries climáticas com pouca rede de proteção. Dados apresentados por Monique Cardoso, superintendente de Sustentabilidade da CNseg, revelam uma queda drástica na cobertura do seguro rural, que recuou de um pico de 16% para apenas 3%. Atualmente, menos de 100 mil produtores possuem apólices ativas, deixando uma parcela significativa da economia sem amparo contra eventos extremos.
Essa desproteção tem consequências diretas na liquidez do setor. Entre os quase 2 mil casos recentes de recuperação judicial no agronegócio, mais de 60% citam eventos climáticos, como secas severas, como o principal gatilho para a crise financeira. A ausência de seguro transforma o risco climático em um risco de crédito imediato, comprometendo a capacidade de pagamento das propriedades rurais.
Integração entre finanças e gestão de risco
A modernização do setor passa pela convergência entre o mercado financeiro e a gestão de riscos. A presença de seguro em carteiras de recebíveis, como as que lastreiam os CRAs, poderia elevar a confiança dos investidores ao garantir que a produção esteja protegida contra perdas catastróficas. Flavia Palacios, diretora da Anbima, reforça que o sistema financeiro já possui arcabouço regulatório para essa integração, desde que o risco seja mitigado na origem.
O debate aponta para a necessidade de avanços legislativos, como o Projeto de Lei 29/2025, que visa conferir maior estabilidade ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). A expectativa é que, ao fortalecer o seguro, o ecossistema do agronegócio consiga equilibrar a inovação financeira com a resiliência necessária para enfrentar as incertezas climáticas. Para mais informações sobre o setor, acompanhe as atualizações em Canal Rural.