A indústria cinematográfica brasileira enfrenta um desafio estrutural persistente: a sub-representação feminina em cargos de liderança. Apesar de comporem a maioria dos estudantes em cursos de audiovisual, as mulheres ocupam menos de 20% das cadeiras de direção em longas-metragens no país. O cenário, debatido durante o festival Bonito CineSur, evidencia a necessidade urgente de políticas públicas indutoras para reverter essa disparidade histórica.
Políticas públicas para a equidade no audiovisual
Para Minom Pinho, produtora e diretora da Associação Paulista de Cineastas, a mudança real depende de metas claras e indicadores precisos. A especialista defende que o setor estabeleça, por exemplo, que a presença feminina em roteiros e direções alcance 30% até 2030. Segundo ela, o cinema funciona como uma zona de resistência, onde apenas intervenções estruturais podem garantir a quebra de barreiras que limitam o avanço profissional das mulheres.
Dados revelam o abismo entre formação e ocupação
O Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, elaborado pelo Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, ilustra a dimensão do problema. Embora as mulheres dominem áreas como exibição e distribuição, elas representam apenas 17% da direção de séries e filmes. Em 2023, o contraste foi evidente: enquanto 231 longas foram dirigidos exclusivamente por homens, apenas 52 tiveram mulheres na direção.
Apesar desses números, a produtora Minom Pinho destaca a alta performance feminina no mercado. Mesmo com acesso restrito a cargos de comando, as mulheres são responsáveis por 44% da movimentação do mercado, provando que a competência técnica não é o fator limitante. O entrave reside em estereótipos que confinam a atuação feminina a funções como direção de arte ou figurino, desconsiderando a capacidade de condução narrativa.
Protagonismo feminino na América do Sul
Durante o festival em Bonito, vozes influentes como a da atriz chilena Paulina Garcia reforçaram a urgência de narrativas mais complexas. Para Garcia, é fundamental que as histórias superem clichês, permitindo que mulheres sejam retratadas em toda a sua profundidade, longe de papéis secundários ou limitados a dramas previsíveis. A construção de uma rede de apoio continental, defendida por Gabriela Sandoval, do Festival Internacional de Cinema de Santiago, surge como estratégia para fortalecer a presença feminina em espaços de decisão.
Para mais detalhes sobre o panorama do setor, consulte o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro.